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PEDRO BERNARDO
27.03.08/27.04.08


Tanques
Vídeo, 2004







Páscoa em IT
2007





Entre a primeira e a segunda Guerra do Golfo (1991 e 2003) a tecnologia desenvolveu-se exponencialmente, o que permitiu a RTP ser a primeira a transmitir o início da guerra através do repórter Carlos Fino. O desenvolvimento das coberturas mediáticas através das novas tecnologias, entre as duas guerras, mudou o papel do jornalismo, devido à instantaneidade com que as informações são veiculadas, sem o devido espaço para a reflexão. A informação passa a fazer parte da própria guerra, onde cada uma das partes procura divulgar só a sua verdade, manipulando os factos. Os líderes mundiais contam com a informação para produzir um novo real. 
Na obra “Simulacros e simulações” (1981), Baudrillard parte do conceito de McLuhan, afirmando que a distinção entre mundo real e simulação (ou imagem) foi implodido. A pós-modernidade é a época das simulações e dos signos governados pela cibernética, por modelos e por códigos. Passando do mundo real, para um simulacro que precede o real. 
Na primeira Guerra do Golfo (1991), Baudrillard argumenta que os Estados Unidos e a Coligação conduziram uma guerra virtual, pois a guerra existiu unicamente no radar e nos ecrãs de televisão. Apesar da carnificina ocorrida na guerra, o público assistiu apenas a imagens editadas, manipuladas e transformadas por ambos os lados. O que nós consideramos como real são simplesmente imagens do real. A noção de realidade foi a primeira vítima da guerra vídeo, da simulação e da reportagem censurada."Bem-vindo ao deserto do real!" (Matrix, 1999) pois para todos os efeitos práticos, ele não existe. 
Durante a segunda Guerra do Golfo (2003) diariamente vista através dos média, o real morto segundo Baudrillard, foi declarado vivo, camuflado e aprovado pelo Pentágono, assistindo a uma reparação do real. Os jornalistas são instrumentos da própria guerra em curso, apontam a alvos pré-definidos, e numa visão simulada apresentam novas realidades dirigidas pelo Pentágono. Os despojos da memória do real são as perspectivas diferentes da guerra que satisfazem a audiência, se não a obliteram. Tal como o “zapping”, apesar das perspectivas múltiplas das tropas em acção, o caleidoscópio visual suplantará qualquer ponto de vista. Repórteres independentes estão proibidos de entrarem no teatro de guerra e são tratados como verdadeiros inimigos. “Morte ao Realismo!” ( eXistenZ, 1999) pois se ele está moribundo, insiste em voltar. O pentágono está actualmente a produzir um novo real. 
Se a RTP foi a primeira a transmitir de Bagdad o início da guerra, através do repórter Carlos Fino, Pedro Bernardo foi o primeiro a simular o ataque a Bagdad nas ruas das Caldas da Rainha. A partir do sótão da sua Fundação (Museu Colecção Bernardo) na Rua Engenheiro Duarte Pacheco, nº 16, Pedro gravou em vídeo a Festa da Cidade no dia 15 de Maio de 2004. O seu ponto de vista é crucial, pois têm visão sobre a Câmara Municipal de Caldas da Rainha, a Praça 25 de Abril e o Hotel Cristal (Ex-Hotel Malhoa), onde se situam as comemorações da cidade. O local e a sua situação ímpar, a festa e o fogo de artifício servem para o realizador simular a batalha de Bagdad, especialmente o ataque negligente dos Estados Unidos ao Hotel Palestina onde morreram dois jornalistas a 8 de Abril de 2003. O pentágono bem alertou os jornalistas ao dizerem que estavam por sua conta própria, o que levou a que se eliminassem os dispositivos de segurança em torno dos profissionais dos média, deixando-os muito mais expostos. 
Esta produção irónica de um “novo real” exposta no Voyeur Project View, é a reflexão consciente de um autodidacta, sobre a sua vivência num mundo contemporâneo ficcionado.