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VASCO ARAÚJO
21.02.08/23.03.08


Sodade
Installation View, 2007


Esta é Lisboa/ a nossa terra de adopção/ que nos recebe/ que nos recebe/ a quando da nossa imigração/ quando já não havia chuva/ os nossos filhos tinham fome/ essa é a nossa vida/ Lisboa tem aquele coração/ bem Português/ nessa nossa aventura/ aventura de imigração/ tantos portos, tantas cidades já conhecemos neste mundo/ mas nenhum nos tocou tanto/ nos nossos corações/ porque Lisboa tem / grande amor/ amor crioulo/ no Boston é para estarmos sossegados/ mas para aqueles do Fogo e da Brava/ Roterdão é para os mindelenses/ Luxemburgo para os Suecos/ e Roma para aqueles de São Nicolau/ não há outro como Lisboa/ porque aqui juntou todos os Cabo-Verdianos/ Lisboa tem Camões/ feira do relógio e Fátima/ Sporting, Benfica e Porto/ enclave de beleza/ e na associação há baile/ até na hora do almoço/ Lisboa só não tem mar/ mas para consolo/ arranjou o Tejo/ quando chegar a hora do regresso/ não fiquemos tristes/ não choremos/ se a patria é a nossa capital (querida)/ Lisboa é a capital da saudade/ desse nosso mundo de imigração///   No Alto Cutelo já não tem “cimbrom” (árvore)/ já secou/ A raiz procura água mas não encontra/ já secou/ água está no fundo e o senhor não a tirou/ já secou/ a senhora tem uma semana que não acende o fogão/ na casa/ o filho na estrada, só um deles trabalha/ por 12 contos/ o marido já demorou muito a regressar a Lisboa/ com contrato/ para ir a Lisboa teve de vender tudo o que tinha/ metade do preço/ na Lisboa trabalha na chuva e o vento/ no frio/ na CUF, na Lisnave, e na J. Pimenta/ é explorado/ mão-de-obra para todo o trabalho/ servente/ mão-de-obra barata/ não tem luz em casa/ come a correr/ é mais engano que o colega branco/ enganado/ explorado/ mas um dia volta à terra/ Monte Gordo/ tem de nos dar àgua/ muita força para trabalhar/ consciência minha/ eu que trabalhei/ terra é poder/ com Cimbrom (árvore) na cutelo/ menino no chão/ barco no porto / nossa terra/ nossa terra///   Onda sagrada do Tejo/ deixa-me beijar a tua água/ deixa-me dar-te um beijo/ um beijo de mágoa/ um beijo de saudade/ para levar ao mar/ e o mar levar à minha terra/ na tua onda cristalina/ deixa-me dar-te um beijo/ na tua boca de menina/ deixa-me dar-te um beijo, ó Tejo/ um beijo de magoa/ um beijo de saudade/ para levar ao mar/ e o mar levar à minha terra/ a minha terra é aquela pequenina/ é São Vicente que é minha/ aquela que no mar parece menina/ filha do céu/ terra do amor///  Gente grande da nossa terra/ que passam por riscos/ veêm-se em Lisboa/ tudo bola baixa/ ai/ ai/ ai/ a riqueza deles aqui não vale nada/ encontram-se com eles na rua/ tudo mundo pequenino/ parece passarinho/ molhado na água/ ali no estrangeiro/ eles não valem nada/ todos nós temos de trabalhar/ para o nosso pão de cada dia///.

Musicas de: Manuel de Novas e Alberto Rui Machado; Renato Cardoso; B. Leza; José Casimiro.




Sodade
Installation View, 2007




Há mais de meio século que Lisboa recebe massivamente os cabo- verdianos. A viagem fazia-se quase sempre a bordo de navios como o Nyassa ou Santa Maria. Começaram por ser chamados à metrópole para substituir a mão-de-obra local que tinha emigrado para países como a França e a Alemanha mas depois do 25 de Abril de 1974 e a Revolução dos Cravos, que acelerou o processo de independência de Cabo Verde e das colónias portuguesas em África, os cabo-verdianos passaram a fazer a viagem por conta própria.
Durante décadas, a capital portuguesa recebeu milhares de crioulos à procura de um emprego e de uma vida melhor. A cidade ofereceu-lhes trabalho, abriu-lhes perspectivas. Lisboa tornou-se numa segunda pátria para milhares de cabo- verdianos mas nem tudo foi um mar de rosas para os emigrantes. Para muitos, o preço a pagar continua a ser elevado e o sonho de uma vida melhor cedo se transformou em pesadelo. Esse quadro misto explica em parte a relação que se estabeleceu ao longo deste longo período entre os cabo-verdianos e a capital portuguesa, e, de uma forma geral, Portugal. Entre o crioulo e Lisboa, o amor mistura-se ao ódio, o reconhecimento à raiva, a alegria à tristeza, a sabura ao ka sabi...
A instalação "Sodade" quer por si reflectir a interrelação entre os emigrantes (cabo-verdianos) e os nativos; entre emigrantes e a cidade, através dos sentimentos patentes nos temas musicais que estes (emigrantes) escreveram. Uns adoram-na porque ali concretizaram o sonho crioulo. Outros detestam-na apenas porque não conseguiram libertar-se das dificuldades e da miséria que pensavam ter deixado para trás. Um sentimento misto contido nas canções relacionadas com a capital portuguesa. sublinha a exploração de que é vítima o emigrante crioulo bem como as suas péssimas condições de vida.