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EFFI HOCH
24.07.06/08.09.06


Untitled
Fotografias Digitais por Telemóvel, Fita Adesiva, Pregos Líquidos.
Dimensões Variáveis., 2006




"Estou sentado. A poltrona está virada para a janela. Através dela posso tranquilamente contemplar o interior de outras casas iluminadas, os afazeres de outros seres humanos. Delicio-me comigo próprio olhando o outro. Recebo no telemóvel estas imagens, captadas pela Effi, que reflectem a minha própria situação. Olho e re-olho este corpo postiço. Toco sem sentir a densidade da percepção sensorial fazendo da minha ânsia uma sequência, tantas vezes semelhante, de um desejo deslocado. Onde está o meu ser? É o meu conceito, a minha ideia que toca as partes do corpo, do mundo através da imagem projectada pela minha própria mente. Tudo sou eu acontecendo em mim próprio. Assustador e fascinante…Alteração do tacto. Extensão descansada e perturbada de mim. Não sinto directamente, mas abro a janela que penso ter escolhido e toco através do meu fetiche. Onde estou? Quem arranha estes outros, estas partes, esta carne? Parecem extensões de mim. Tudo um imenso auto-prazer estético. Em quem, em quê, fica gravada a marca destas unhas? Finalmente foi-se a angústia metafísica. Uso a ideia como prazer elaborado. Que postiço é este que altera o toque, a sensação o pensamento? Oferece-me um mundo controlado por mim, não abismal. Leveza…

Estas unhas vão mais longe que o meu olhar. Agem, compõe mais activamente a delícia da contemplação estética. Deixam uma marca, interagem com as cores, texturas, peles, carnes…O que me atrai? Aí assentuo a pressão mental através destes artifícios. Fetiche meu. Unhas longas pintadas. O dedo não precisa tocar o outro. Não há perturbação. Prazer controlado por mim. Vejo a cor destas unhas pousando, arranhando aquela outra textura colorida.

Para quem envia Effi estas imagens esta noite? Fascinada por esta envolvência estética artificial, focaliza o seu olhar, sua atenção, seu telemóvel com câmara fotográfica e delicia-se na sua própria sequência cinematográfica, observando, mas envolvendo-se nesse prazer da imagem, da ideia. Insólito… Mas esta substituição da sensação táctil por um prazer elaborado - conceito escondido em sensações – permite uma leveza que só se adensa com o momento de cravar as unhas nos elementos presentes ao olhar e ao despertar do prazer do fetiche.  Aqui sentado na poltrona continuo reduzindo o meu campo de possibilidades de percepção. O real é questionado sem o ser. O ser não toca o ser, a estética não toca a arte, mas este prazer é exaltado também para o pensar do que me acontece e as aparências fazem vibrar as cordas de uma personalidade construída pelo próprio conceito. Sinto? O quê? A partir de onde?"

 

Johann Bloch
via e-mail