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ANA RITO
19.10.06/18.11.06


Interlude (Black Draft)
Mixed Média, Dimensões Variáveis, 2006




NIEDERKOMMENLASSEN

Debruçar-me-ei nalgumas linhas sobre o trabalho de Ana Rito apresentado no Voyeurprojectview, intitulado Interlude (Black Draft), de 2006, desde logo salientando que neste espaço a artista propõe, no meu entender, um percurso cénico, contido, mas nesta contenção e relativamente a trabalhos anteriores, coloca em marcha um dispositivo que possibilita uma leitura de múltiplas narrativas.

1. Home-made video

O corpo videográfico, ou mesmo fílmico, pode ser encarado como um sistema “mecanizado”, digamos, “mecânico-carnal”, sendo o seu movimento orientado e dirigido por uma ansiedade própria de quem segue um script e tenta, nas suas acções, traduzi-lo na representação de um hipotético personagem. 
A descrição de uma cena, muitas vezes tornada excesso, é, em Hitchcock por exemplo, ordenada, sistemática, repetitiva e sem impulso para o caótico. A narrativa, e a sua não-linearidade (remeto para os trabalhos apresentados pela  artista na exposição «Melancolia» este ano no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, Melancolia [vídeo] e On Stage [vídeo], onde esta questão é precisamente explorada) permite ao espectador enveredar por situações que prolongam o clímax, e onde o detalhe se torna o signo de uma figura alegórica, encenada, descrita. 
Mas a descrição pode significar literalmente tornar visível, colocar no papel ou delinear uma forma. (D)Escreve uma estória. Tal como a arquitectura, cria um espaço, ainda que literário na sua aproximação, e esboça o corpo do seu personagem e dos observadores que o seguem. 
Slavoj Zizek, quando aflora o cinema de Hitchcock na sua sobejamente descrita noção lacaniana de “Real” e de “Simbólico”, segue na senda do «sintoma hitchcockiano». 
Lacan considera o sujeito nascido no “Real”, no mundo sem mediação, sem separação entre o “Eu” e o “Outro”, sujeito e objecto. Após o desenvolvimento e o surgimento da linguagem, essa indiferença estreita-se no nível do “Simbólico”. Aqui, o sujeito concebe a separação entre o “Eu” e o “Outro”. 
A partir daqui, as relações são mediadas, embora o Real não possa ser confundido com «realidade», o entendimento do mundo através do Simbólico. Nenhum sujeito tem acesso ao Real; a partir da aprendizagem da linguagem, o “Real” é apenas simbolicamente atingido. 
O sintoma que referi acima, analisado por Zizek, pode ser descrito como o momento onde o Real penetra o Simbólico, onde a presença espectral que força o entendimento de um “outro” circundante, permite o discernimento da “realidade real”. Poderia salientar aqui o exemplo descrito por Carlos Vidal acerca do filme Matrix, de  Larry e Andy Wachowski, seguindo Badiou: «Que fazem os Wachowski? Dizem-nos que a nossa alienação provém de nós mesmos, e propõem a libertação da simulação negando a indecisão e a dissolução real-virtual; por seu lado, também Badiou reclama uma prova do real perante a aparência: mostrar a aparência visível dentro da aparência, ou seja, confirmar que as sombras não são mais do que sombras» (Carlos Vidal, Sombras Irredutíveis – Arte, Amor, Ciência e Política em Alain Badiou). 
Este ponto pode revelar-se através de algo que não se encontra no seu devido lugar, aparentemente deslocado, ou num momento que o filme (no caso de Ana Rito, o vídeo) devolve ao espectador o olhar, em câmera subjectiva, uma noção mais expansiva de voyeurismo, nitidamente imbuído de poder e visão masculina muitas vezes inflamando a discussão feminista em torno de um “patriarcado da imagem fílmica”. 
É aqui que me parece interessante o projecto desenvolvido e apresentado por Ana Rito no vídeo que apresenta, propositadamente sem título; o que temos então aqui? A artista solicitou a uma actriz profissional (neste caso Maria Gil, presença assídua em alguns dos seus últimos trabalhos) que registasse o seu quotidiano durante 24 horas através do vídeo. A actriz fez, assim, uma escolha de momentos que gravou num registo de aproximadamente uma hora de fita. Da parte da artista não existiu qualquer tipo de manuseamento do material não editado, transcrevendo para suporte de disco digital todo o segmento de filmagens para ser passado em loop. Esta é a primeira premissa e a mais importante da peça. 
Curiosamente, a actriz escolheu raramente filmar-se a si própria, o que coloca em primeiro plano a seguinte ideia: aquilo que Ana Rito poderia considerar o seu acto de observação de um corpo de outrem, acabou por ser a observação de alguém a observar outros, fechando um círculo de observador→ observado/observador→observado. 
Entramos num quarto escuro. À medida que os nossos olhos se ajustam à luz percebemos pequenos detalhes. Uma figura entra numa porta, senta-se ou anda de um lado para o outro. Olhando mais cuidadosamente, os detalhes iludem. 
Cada cena é um instante de possibilidade. Um tableau vivant. A fluência daquilo que é mostrado segue a ordem daquilo que actriz (personagem?) percorre, o tempo e o espaço parecem em contenção, pois filmar é linear; a linguagem é temporal. Liberta o inconsciente num desdobramento performativo teatral, relevando os sentidos. 
Mas, mesmo assim, a descrição faz colapsar o “temporal” no “espacial”, e os sentidos implodem num caos sistemático de imagens. 
Tecnicamente desajustada a um critério de enquadramento rígido, a técnica de “câmera na mão” permite um resultado de imediaticidade pouco cuidada que se aproxima à ideia de registo tempo-real (que se afasta da visão cinemática e da exímia composição dos dois vídeos que Ana Rito produziu este ano e apresentou em Coimbra, no CAPC, onde a clareza da imagem, o seu registo num formato que permite alta definição, se contrapunha à velada acção dos seus sujeitos), mas sem cair no documental. 
Na sua proposta, Ana Rito apresenta uma realidade corpórea, que poderia ser a de todos nós, apresentando-a em informação abstractizante para o observador. 
Estes momentos do vídeo são aquilo que nos apercebemos como escolhido para captar, em detrimento dos intervalos entre cada registo, ou seja, aquilo que foi “apagado” (diríamos rejeitado) até chegarmos a essas mesmas abstracções de corpos informes, sem história.

Hugo Barata
Outubro 2006